Fotografia e Discurso Visual |
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A Câmera Escura renascentista, reproduzia a concepção do logocentrismo ocidental, que substituía Deus pelo olho-objeto. A teoria cartesiana, dessa forma, pressupunha um tipo de imagem fria, mecânica e totalmente determinada pelo seu método.
Seu idealizador, René Descartes (1596-1650) acreditava na correspondência absoluta entre cada ponto no espaço e sua respectiva representação tanto na mente quanto no plano. Nesse contexto, a verdade estava na adequação do pensamento do sujeito ao objeto pensado.
autor: Prof. Enio Leite.
O modelo, portanto, era o da geometria analítica, com as projeções de pontos em dois eixos ortogonais. Inaugurava-se assim, uma concepção binária da representação, essencial para a concepção científica das imagens. O próprio conceito mercantilista já trazia consigo o embrião matemático, analítico, cuja continuidade em nossos dias avança através dos processos digitais. Quanto mais imediata e evidente for a imagem, maior a sua correspondência binária, consequentemente maior seu teor de veracidade.
Com a adoção do discurso cartesiano, começam a ser instauradas as condições propícias para a concepção da imagem, exigindo menor participação das mãos do pintor e do desenhista, substituído lentamente pela presença das sucessivas conquistas da técnica fotográfica.
Essa nova metodologia “perspectiva artificialis”, agora incorporada nas novas representações visuais, refletia em todos os seus aspectos a ideologia do Renascimento Mercantilista. A pintura do século XV, caracterizada pelo seu aspecto global/sintético, durante o século XVIII se transformou em espaço contínuo até chegar ao século XIX, quando apresentou uma descontinuidade abrupta, fragmentária e analítica. A pintura passa a se utilizar dos fragmentos, após séculos de fragmentação cartesiana.
A fotografia, tal qual a conhecemos hoje, é uma continuidade da Ideologia Renascentista, agora reciclada, adaptada e incorporada à nova Ordem da Sociedade Industrial. Ela nada mais é do que a visualização desse novo discurso: racional, claro, tecnicamente perfeito e instantâneo. Ao invés de ser um "retorno renascentista", a fotografia é, em síntese, a retomada a nova racionalidade da emergente burguesia industrial, a partir de meados do século XIX.
Portanto, os discursos ou sistemas simbólicos elaborados pelos homens para representar o mundo, são sempre ideológicos, pois, longe de constituírem entidades autônomas transparentes, são, em última instância, determinados pelas próprias contradições inerentes à vida social.
De fato, à medida em que uma civilização ingressa no Processo de Acumulação de Capital, tanto em variedade, como em riqueza, os níveis de trabalho, os atos e os interesses de que compõe a vida da sociedade, se dividem entre diferentes grupos de homens: nem o estado de espírito, nem a direção de cada atividade são os mesmos para o sacerdote, para o soldado, para a personalidade política, ou ainda para o homem do campo. Mesmo que tenham herdado o mesmo idioma, as imagens passam entre eles a incorporar significados distintos, que se fixam, e acabam por serem aderidas pelos mesmos.
O significado do discurso fotográfico é definido por um conjunto de noções oriundas de cada segmento social e as associações dessas imagens estarão diferenciadas em função da maneira que cada grupo a emprega ou atribui o seu valor.
A evolução da linguagem fotográfica está, na realidade, em estreita dependência do seu contexto histórico. Temos, assim, uma relação evidente entre a evolução da linguagem e as condições sociais em que a fotografia, enquanto meio de expressão evolui. O próprio desenvolvimento da sociedade conduz a linguagem por um caminho determinado. Portanto, a história das imagens é reflexo direto da história das civilizações.
A cultura é um sistema dinâmico cuja evolução se justifica pelo seu específico contexto histórico; de forma nenhuma pode ser preservada em museus, ou em meios sociais isolados, sob pena de tornar-se arcaica e extinguir-se. A cultura, como a própria língua e outras manifestações visuais, necessitam de mobilidade, para estar em contato com outras classes, com outros povos, mais ou menos desenvolvidos, para reciclar seus padrões e valores, onde cada indivíduo e a sociedade como um todo conheçam novas maneiras de discursar a sua autonomia com originalidade dentro da sua natureza específica. Em síntese, não importa a origem dos novos padrões e sistemas de valores porque, uma vez transplantados, suas raízes originais logo desaparecem e novos valores e atribuições culturais surgem da miscigenação com outras etnias.
O que realmente importa é como estes novos discursos vão ser aproveitados e incorporados na sociedade que os recebe. Por fim, não se pretende reduzir a questão da linguagem a um mero fenômeno ideológico. Trata-se antes de uma interação ideológica com os anseios e utopias de todos os segmentos, de dentro e de fora da sociedade, em determinado momento histórico.
A fotografia, antes de mais nada é um documento. Sua linguagem
se resume no discurso, na narrativa visual. Seu único propósito
é a mensagem, contida na própria imagem ou no simples
recado que o fotografo quis transmitir. A fotografia fala por si mesma...
E que para tudo isso possa acontecer vamos depender da sensibilidade
do seu autor, da sua persistência, do seu olhar, conhecimento
técnico, padrão cultural e principalmente do seu trabalho
criativo e intelectual.
autor: Prof. Enio Leite.
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