Roland Barthes hoje |
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O bigode de Saddam, os cruzamentos de Beckham e rapazes marroquinos
"Barthes is Back", do jornalista Stephen Bayley no "The Independent", de Londres em 2002: "Se Barthes estivesse entre nós, estaria escrevendo sobre o bigode de Saddam Hussein, os cruzamentos de bola de Beckham e os Simpsons, já que seus interesses incluíam todas as formas de comunicação e, também, rapazes marroquinos".
Por Thereza Pires / 26/11/2004.
Canhoto num mundo de destros, protestante num país católico
como a França e órfão de pai - um oficial
de marinha falecido na primeira guerra foi sustentado pela
mãe que trabalhava como encadernadora de livros.
Expatriado nos anos 50, seguiu firme na contramão da sociedade
conservadora assumindo abertamente sua homossexualidade. Assim
foi Roland Barthes - escritor, semiólogo, pensador, crítico
literário - nascido em Cherbourg, Normandia, em 2/11/1915.
Com a morte do Comandante Barthes, Henriette e o filho mudaram-se
para Bayonne e, em seguida, para Paris onde Roland se formou na
Sorbonne (1939) em literatura clássica, gramática
e filologia.
Ao mesmo tempo em que estudava linguística e lexologia,
Barthes participou do grupo "Defesa Republicana Anti-Fascista",
reagindo aos movimentos de extrema direita que sacudiam a Europa.
A alma voa
A luta contra uma tuberculose renitente o obrigou entre 1934 a 1947, a ser internado em diversos sanatórios. Enquanto tinha que manter o corpo em repouso, a alma voava: lia as obras de Marx e produzia artigos para o "Combat" - importante jornal esquerdista na época da resistência aos nazistas. A partir de 1948, trabalhou como professor convidado e bibilotecário na Universidade de Bucarest (Romenia) e foi conselheiro literário na Universidade de Alexandria (Egito).
De 1952 a 1959, foi pesquisador de lexicologia e sociologia
do Centre National de la Récherche Scientifique em Paris,
participando do lançamento de revistas como "Argumentos"
e "Quinzena Literária".
Inspirado na linguística de Saussure e Bloomfield animou
o movimento da Nova Crítica e fundou a revista "Teatro
Popular".
Reconhecimento oficial
Dificuldades materiais e questões de saúde o fizeram perder o exame agrégation, que o direcionaria às carreiras ditas "ortodoxas". No entanto, aos 44 anos, foi indicado - graças ao conjunto de sua obra - para ocupar um posto na École Pratique des Hautes Études. Aos sessenta, já consagrado mundialmente por mudar a forma de ver e entender os significados e significantes, passou a ensinar no prestigioso Collège de France.
Para Barthes, o significado seria a representação psíquica de uma "coisa" e não a "coisa" em si. O significado de uma imagem é sua representação gráfica. O significante materializaria a figura do significado (a figura propriamente dita) com seu significado segmentado e entendido de várias formas, segundo as diferenças culturais de cada leitor ou observador.
Publicou obras em linguagem acessível ao grande público,
o que contribuiu para que suas idéias vanguardistas fossem
divulgadas além da comunidade acadêmica, por exemplo:
Mitologias, Ensaios Críticos, Roland Barthes por Roland
Barthes (autobiografia irônica).
Foi figura de referência em semiologia, estruturalismo e
crítica literária e é considerado por alguns
estudiosos, baseados na vasta bibliografia sobre o assunto, um
pensador e teórico do que se chama hoje "cultura gay".
Em 1976, criou a cadeira de Semiologia Literária no Collège
de France. Suas aulas e conferências eram freqüentadas
por um público sempre perplexo e extasiado.
Arquiintelectual
A gama dos temas abordados pelo semiólogo era imensa:
moda, o império dos signos (título de um livro),
música, fotografia, mitologia, diversões, cinema,
arte em geral e arte japonesa em particular, culinária,
discurso amoroso (outro título de livro, no qual Barthes
explica o que deve ser dito e quando, para incrementar um relacionamento
amoroso), imagens visuais, literatura, teatro, as mensagens da
propaganda e a força do marketing.
Pintor, músico, erudito, professor, escritor, teórico
social, crítico e amante da vida, chocou a burguesia francesa,
abordando de seu ponto de vista privilegiado, a política,
a sociologia e a teoria literária.
De acordo com seus textos autobiográficos percebe-se, muito discretamente, que teve uma vida amorosa infeliz.
Morte na Rue des Écoles
"Câmara Lúcida - notas e reflexões sobre a fotografia", derradeira obra, é um diário, homenagem à mãe e autoepitáfio. (Câmara Clara, Editora Nova Fronteira).
Henriette, mãe e companheira de toda vida, morreu em 25/10/1977 e Barthes sentiu, do ponto de vista de homem gay, a perda de uma permanente fonte feminina de amor. Barthes dizia que, sem a mãe, parecia "ter perdido a alma".
O interesse de Barthes pela fotografia passa pelo parodoxo de possuir uma prova material do objeto para sempre perdido (a presença da mãe, no caso). Jacques Derrida, filósofo recentemente falecido, comentando esta obra disse que se trata de "uma forma de vigília e de encarar a morte jamais capturada em toda a história da literatura"
Ao sair de uma aula em 25/2/1980, foi atropelado por um carro
de entregas de uma lavanderia, nas Rue des Écoles, em frente
ao Collège de France.
Em 6 de março, nove dias depois, morreu em conseqüência
dos ferimentos e lesões.
O Centro Georges Pompidou (Paris) apresentou, de 2002 a 2003,
uma exposição multimídia sobre cada etapa
da obra de Roland Barthes. Quadros, objetos pessoais, vídeos
e gravações da expressiva voz.
No centro da exposição, junto à sua biblioteca,
foi construído um jardim zen.
Por Thereza Pires / 26/11/2004.
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